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ENTREVISTA -  FRANK MENEZES
REVISTA BOCA DE CENA 2015

Por.Paulo Atto.

PAULO ATTO: Trinta anos de carreira são bem emblemáticos, ainda mais considerando suas experiências no Teatro, Cinema e TV. Quais os planos para os próximos trinta anos?

FRANK MENEZES - Muito obrigado por desejar mais trinta. (Risos) Os planos são os mesmos que me moveram durante toda minha trajetória, que é continuar atuando em projetos que me deem prazer, e que me proporcionem a oportunidade de me repetir muito, ou seja, fazer temporadas longas. Para isso, é necessário trabalhar com visão de marketing, para criar meios de construir essas temporadas.

PA: Independente do espetáculo, do texto, da direção, quais os personagens que a memória afetiva de Frank Menezes guarda?

FM - Eu me lembro de quase todos! Bom, Flávia, da peça Dorotéia (1987) de Nelson Rodrigues, da montagem do Artes e Manhas, direção de Paulo Cunha, foi muito importante principalmente porque o público já estava mostrando que queria ver nosso teatro. Nós tivemos casa cheia todas as apresentações e muita gente me viu com 25 anos fazer uma velha de 60 ou 65 de uma forma farsesca. Marraio de Boca de Lobo(1984) de Geraldo Portela, direção de Nilson Mendes, era um marginal, frio, assassino, e um personagem que me deu a oportunidade de mostrar, desde cedo, que eu não era só um comediante. Pandora, de A Bofetada(1988), é um marco na minha carreira, pois além de me lançar nacionalmente através do teatro, pude fazer mais de mil vezes. Protágoras de DEUS(1998) de Woody Allen, direção de Mauro Mendonça Filho, foi um personagem que me rendeu muitas críticas legais e importantes da Folha de São Paulo e do Estadão (Jornal O Estado de São Paulo) e era uma peça com muitos atores do sudeste com projeção nacional, como Murilo Benício, Amir Haddad, Otávio Muller, Cristina Aché, Teresa Piffer, Tadeu Melo. Era um elenco tão grande, tão diferente e ficamos quase dois anos em cartaz e a peça não pode vir a Salvador. Volpone de Ben Jonson(2000), com adaptação de Claudio Simões e direção de Fernando Guerreiro, amava fazer aquele espetáculo e por ser um clássico tinha para mim um humor/sabor mais apurado. E Dora Lee de A Capivara Selvagem (2013), de Luiz Marfuz, texto e direção, além de ser o mais recente, tem minha comemoração de 30 anos como tempero e fala sobre teatro e nossas dificuldades de uma forma que sempre gostei de falar: com humor, com emoção, com suspense, com música, com cinema e com teatro.

PA: Existe algum(uns) espetáculo(s) que você gostaria de encenar outra vez ? Qual a razão da escolha?

FM - Eu sei que você não está se referindo aos que eventualmente euretorno em cartaz.

PA: Necessariamente não, mas siga com seu raciocínio.

FM -  Pois é, como O Indignado e Quem matou Maria Helena? Pois, são meus monólogos e quem tem monólogo, sempre está com eles guardados na gaveta. E também A Capivara Selvagem, que ainda está por voltar a cartaz! Então eu gostaria de voltar com espetáculos que o público que hoje me assiste não viu, como: Cabaré Brasil, O Banquete de Paulo Atto (1986) Até Delirar (1984) também de Paulo Atto (risos) com o qual fizemos várias capitais do Nordeste, Dorotéia, Sr Puntilla e seu criado Matti, Boca de Lobo e Deus, pois não veio para Salvador, como já disse.

PA: Você passou bastante tempo em um grupo de teatro, o Artes & Manhas, com direção de Paulo Cunha e Hebe Alves, depois foi a vez da Cia Baiana de Patifaria, que não chegou a se constituir em um grupo, você saiu das duas estruturas. Estas experiências contribuíram de que forma para sua formação?

FM - As experiências no Grupo Artes e Manhas e na Cia Baiana de Patifaria foram fundamentais na minha carreira! Tenho certeza que sou o ator e produtor que sou hoje por causa destas vivências, que foram riquíssimas. Todo profissional precisa ser construído com o tempo, e o que eu tive dentro dos dois grupos foi muito importante, porque passamos por todo tipo de dificuldades e sucessos!!!

PA:: Hoje você ainda toparia entrar num grupo teatral? A carreira individual e o teatro de grupo são conciliáveis?

FM - Acho que sim, não acho que seja difícil encontrar pessoas que pensem parecido conosco, e isso é o que eu acho importante para um grupo se estabelecer: o pensamento unificado com um objetivo. O objetivo de se montar um espetáculo, de se mostrar uma ideia cênica, de se mostrar formas/modos de arte! Eu não sei se dá pra conciliar, só se o destino me mostrar isso, pois acredito muito nisso também, no destino, no acaso. Pode ser que um dia eu encontre outras pessoas com vontade de se unirem em busca de apresentar um produto artístico, que eu me identifique e peço a Deus e a eles que me deixem fazer um cineminha ali uma televisãozinha acolá!! (Risos)

PA: O que os anos trouxeram de bom para você como artista ?

FM - O bom é que hoje as pessoas me identificam como artista e agregam a mim a qualidade de um produto bom, de um bom espetáculo!

PA: E de ruim?

FM - O ruim é que apesar de se fazer sucesso, ainda existe um preconceito latente. A mesma pessoa que vem falar comigo, feliz por estar me encontrando num supermercado, por exemplo, pergunta também com o que eu trabalho. Como se o que eu faço, fosse pra me divertir. Acredite, querido, pois ainda tem gente que me fala assim, sem nem pensar na vergonha que está causando ao cosmo! (Risos) Outra forma de preconceito latente, é achar que quem faz Teatro está querendo é fazer Televisão. E não falo por causa dos que fazem por isso mesmo, não! Falo de uma porção enorme de pessoas que acreditam que teatro só existe por causa disso, como se Teatro fosse uma coisa menor, um degrau para outra coisa.

PA: Falando sobre esta perspectiva do valor da linguagem teatral. Que avaliação você faria da atual situação do teatro e da Artes em geral na Bahia? O panorama está melhor hoje?

FM - A qualidade, acredito, continua muito boa em quase tudo que fazemos. Principalmente nas artes em geral (artes plásticas, dança, teatro e música de câmara, gosto muito do nosso rock (não falo do axé, nem dos derivados do carnaval, nem do pagode e arrocha, pois esses são eventos). Então, a  qualidade ainda anda boa, mas o público dá a impressão que diminuiu porque a população aumentou muito e numa velocidade tão grande que proporcionalmente, para o teatro, para mim, o público é o mesmo. E para outras áreas, caiu bastante, nossos museus vivem vazios, e é gratuito na sua maioria. A nossa educação nacional é tão ruim que em cidades como a nossa em que a TV não ajuda a divulgar arte e educação, o público não aumentará. Não sei, sinceramente não sei! E também não sei se mudou muito. Às vezes, acho que nós somos os mesmos! As necessidades são as mesmas, as queixas são as mesmas, os incentivos são os mesmos. Só o público muda, às vezes, pois dependendo da peça, o público é o mesmo! Precisamos divulgar mais ainda. E talvez economizar mais na madeira e colocar mais outdoor! (Risos). Eu nunca fiquei esperando lei de incentivo, se tenho patrocinador ótimo, se não tenho vendo o carro, tiro dinheiro da aposentadoria e estreio!

PA: Você fala com muita desenvoltura sobre produto, marketing, público. Qual a sua estratégia para o Teatro?

FM - Acho que temos que ver o TEATRO como produto cultural! Não só o meu, o todo, as artes! Temos que estar na prateleira de produtos consumíveis! Na verdade já estamos. Nos sites, as janelas são distribuídas assim! Está lá: entretenimento. E depois você clica nas opções: cinema, teatro, música, dança etc! Acho que é isso!

PA: C: O Teatro é muito forte no seu discurso. O que o Teatro representa para você?

FM - Absolutamente tudo! É literalmente minha vida, não só financeira como meu rivotril, que nunca tomei, acho que por causa do palco. (Gargalhadas)

PA: O que mais atrai o ator Frank Menezes: Drama ou Comédia? TV ou Cinema? Teatro ou TV?

FM - Pôxa, que pergunta sacana! Tudo tem seu lugar! Atualmente, a comédia me atrai muito mais. É fascinante ter que dividir a piada na respiração/risada do público, esperar que ele pare de rir para concluir é o que mais me excita ultimamente, ou seja o Teatro é minha vida e é o que mais me atrai.

Mas o cinema tem me dado a oportunidade de interpretar personagens mais densos. Nunca imaginei que fizesse um delegado como o de Capitães da Areia, e Cecília Amado me deu esta chance! No cinema existe um apuro e um cuidado maior; já na TV não é tudo tão editado quanto no cinema. Quase sempre no cinema, alguma cena que você fez, não vai para a tela. Ou o som não ficou bom, ou a luz não ficou igual ao resto, ou é isso, ou aquilo, ou alguma outra merda! (Risos) Na TV não. Vai de qualquer jeito, e ninguém nota, ou nota e vão dizer: ihhh! o cabelo não casou! Mas nos dois, TV ou cinema, a repercussão é bem maior, você é visto por milhões de pessoas ao mesmo tempo. Através dos dois você vai viajar o mundo todo. Já fui dublado em inglês, francês, alemão, italiano, espanhol, bósnio! Dos filmes que fiz, dois estão ainda passando na Europa. E na TV, como a Globo avisa e também manda o contracheque (risos) sei que a telenovela O Astro  está atualmente sendo exibida no Panamá, Colômbia, Bolívia e Porto Rico. E a minisérie Gabriela acabou de passar em Portugal, na Venezuela e no México. E ainda A Pedra do Reino, outra minissérie da Globo que eu participei está na redes de TV do Leste Europeu! Isso é maravilhoso, eu queria me ver dublado em romeno! (risos)

PA:  – Acredito que o desejo de maior visibilidade do trabalho do ator levou muitos atores baianos a migrarem para o Sul do país e muitos deles estão na TV. Hoje, por exemplo, numa cena da nova novela, das 21:00h, havia uma cena onde curiosamente estavam simultaneamente três atrizes baianas contracenando. Esta se tornou uma etapa natural da vida profissional do ator na Bahia ? Ou é mesmo uma necessidade?

FM - Pergunta difícil. Será que é necessidade? Tomara que não, mas também, evito dizer que sim. A batalha pra conseguir patrocínio é árdua. Não consegui para A Capivara Selvagem e não consigo para O Indignado desde 2010. Entro em cartaz na cara de pau, devendo, para pagar depois. E é assim que tem que ser, na confiança daqueles que sabem que depois vou pagar por que tenho público. E quem está começando? Como é que faz? Lá no sul é a mesma coisa! A gente reclama da Bahia, mas quem está lá sabe que não é todo mundo que consegue um patrocinador. Se não estiver protagonizando uma telenovela não vai conseguir fácil não! Então, e aí? Vai competir aqui ou lá? Talvez São Paulo seja um pouco diferente, porque é a terceira cidade do mundo, não é parâmetro para nenhuma outra cidade brasileira, acho que o Rio de Janeiro, por exemplo, está mais para a Bahia e Recife do que para Sampa! Mas em todo lugar vai ser difícil. Ainda agradeço a Deus ter nascido aqui, pois existem outros lugares que são bem piores e eu sei que tem um ator ou uma atriz talentoso/a louco/a para trabalhar.

PA:: Acho que foi Antunes Filho que afirmou certa vez que os atores confundem respeito com reconhecimento, sobretudo em função da grande visibilidade que a TV oferece, você acredita nisso? A visibilidade na TV te ajudou no teatro?

FM - Pouco, mas ajudou! Confesso que esperava mais! Esperava conseguir que alguma empresa se interessasse pelo meu espetáculo e não aconteceu! Agora, o reconhecimento na rua é inquestionável, mas o respeito que me dá é o público do Teatro. Existe sim, uma diferença de quem me viu e frequenta teatro e o público de TV, por exemplo, uma diferença gritante literalmente, pois me dá vontade de gritar quando me chamam de  Primo da Primordial, que é na verdade o Marcelo Praddo! (Risadas) E este público, não vai ao teatro, é cultural não ir, e aí também a TV ajudou pouco!

PA:: Há muitos atores jovens na Bahia que estão iniciando as suas carreiras no Teatro, você teria algo a dizer a eles baseado na sua experiência? Não digo um conselho, mas um depoimento.

FM - Não deixem que o deslumbramento os ofusque, pois o ator tem que ver tudo em sua volta para se tornar um profissional. Mesmo que não façamos parte da produção, nós temos que saber de tudo, pois não estamos na Broadway! E nem lá você fica só dentro do seu personagem, da sua criação. Estou numa carreira individual, mas sei que o Teatro é um coletivo, onde tudo tem que estar bem para a apresentação da obra. O público espera isso, ver uma obra e não somente seu/meu personagem. Então, isto inclui saber o que acontece da bilheteria à coxia, do estacionamento ao camarim, do cenário, do figurino, dos pregos, dos ferros, das cordas, dos tecidos e das pessoas, todas com nomes. Nossa educação está tão falha, que não se apresentam mais as pessoas. E por fim, tem que ter culhão! (Gargalhada)

PA:: Depois de trinta anos de carreira esta é uma pergunta clichê que não pode faltar, assim não vamos evitá-la: qual personagem que você ainda gostaria de interpretar ?

FM - Ricardo III, de William Shakespeare!

PA: Permita-nos dizer que é uma grande escolha. E o que você acha que anda faltando no Teatro ?

FM – (sem pestanejar) ARRUDA, GUINÉ E CORANA! (Mais risos)

PA: Alguma pergunta ainda deveria ser feita a Frank Menezes?

FM - Nenhuma amado! Tudo que precisam saber de mim, já sabem!