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ENTREVISTA - DIRETOR TEATRAL FERNANDO GUERREIRO
REVISTA BOCA DE CENA 2015

Por. Luis Alonso-Aude

Transcrição. Hilda Nascimento.

LUIS ALONSO. Fernando Guerreiro é um diretor independente, sem grupo nem equipe fixa de criação. É uma opção pessoal que independe das circunstâncias onde você tem criado ou tem sido obrigado a esta escolha?

FERNANDO GUERREIRO. Olha, eu acho que na verdade, não foi uma escolha, isso aconteceu no próprio processo da minha carreira. Em muitos momentos eu trabalhei com grupos específicos sem nominá-los sem dizer: eu tenho esse grupo com que eu trabalho sempre. Eu acho que em alguns momentos trabalhei com atores em vários espetáculos, desenvolvi processos com esses atores sem que isso fosse uma coisa institucionalizada. Mas confesso que a questão grupo para mi tem pontos maravilhosos mas também tem questões que me incomodam um pouco. Eu lhe confesso que meu teatro tem uma certa urgência, uma certa emergência de realização, então o processo grupal implica numa discussão coletiva, implica num debate, numa adequação de idéias, em um processo que privilegia o ensaio; a apresentação é importante mas o ensaio, o processo é muito importante. E eu lhe confesso que como diretor a minha grande paixão é a temporada, a minha relação com o público, não é a minha relação de dentro da sala de ensaio. Isso dificulta bastante, mas por outro lado acabo de ter uma ideia de que você pode ter um grupo que trabalhe basicamente com essa relação de platéia, com essa reação da platéia Ou seja, de repente se eu encontro pessoas que tenham vontade de estudar a platéia, as platéias e diminuir os processos pode ser muito interessante. Pode virar uma proposta de trabalho que seja temporadas longas, ensaios curtos e grandes discussões sobre comportamento de plateia, comportamento de público, desejo da plateia, etcétera. Pois é, creio que teve esses fatores, mas nunca houve uma intenção em não ter grupo ou alguma coisa que atrapalhasse ou que impedisse isso. Um outro ponto também que também seja um outro condicionante, normalmente num grupo você acaba tendo um desequilíbrio muito grande entre os atores, então você acaba tendo um grupo de atores que não são tão brilhantes. Tentando manter o grupo você vai ter um mais interessante, os fraquinhos, então isso também me baixa completamente o tesão. Você acaba tendo um trabalho que é mais propriamente assinatura do diretor do que dos atores e como o meu processo também envolve muito um estímulo que vem do ator, do bom ator, do excelente ator, do ótimo ator, eu acho que isso acaba atrapalhando o processo. Eu consegui ter grupos em momentos da minha vida com grandes atores, mas eles duraram pouco, porque esses atores foram imediatamente convidados para fazer outros processos, fazer televisão, fazer cinema e acabam se afastando do processo grupal e acaba gerando um desestímulo. Agora, eu conheço diretores que conseguem manter grupos de grandes atores, como Enrique Dias que manteve durante anos a Companhia dos Atores (Rio de Janeiro). Então acho que também é possível. É a circunstância.

LA. Você tem atravessado estéticas no universo teatral ao longo de sua carreira, indo desde o universo rodrigueano de Toda Nudez será Castigada, o Balcão de Genet e seu universo barroco na Igreja do Solar do Unhão, o drama psicológico Eqqus, a ocupação do trem em Boca de Ouro, passando pela pesquisa teatral e mais intimista em Pólvora e Poesia, dirigindo a conhecida e popular peça A Bofetada da Cia Baiana de Patifaria  e ocupando  praticamente todas as salas de teatro da capital baiana, chegando a ser um dos encenadores mais reconhecidos do Brasil.  Ao seu ver o que acontece com o teatro na atualidade?

FG. Uma primeira percepção, eu acho que  é uma pergunta que você pode responder em vários itens, com vários enunciados. A primeira sensação que eu tenho, hoje, objetiva, estando afastado do teatro nacional e mundial por causa deste cargo público que me prende a Salvador, então estou viajando pouco e vendo poucas coisas fora e não gosto de ver teatro em outros equipamentos, teatro filmado é algo que me irrita profundamente. Mas eu tenho uma sensação de que existe uma dificuldade hoje do teatro comunicar. Eu acho que é uma contradição, pois o teatro é a mais imediata das linguagens, aquela em que você pode transformar um fato em ação em muito pouco tempo e percebo que a gente está muito distante da realidade imediata. Acho que isso afasta o público, isso acaba gerando coisas desinteressantes ao meu ver. Eu acho que deu uma desconexão. E claro que existem os clássicos, mas até os clássicos não estão sendo bem escolhidos. Eu acho que esse é outro problema, os clássicos que estão sendo encenados de alguma maneira não estão interessando tanto. Mas existe no Brasil uma ilha de excelência que é São Paulo que ao meu ver tem um movimento teatral interessantíssimo, fruto de uma lei de fomento, que privilegiou grupos, ocupação de espaços e que hoje você tem um movimento teatral em São Paulo absolutamente rico e com uma diversidade incrível. Mas ao mesmo tempo eu percebo, que eu sou muito espectador, e hoje dificilmente me vejo motivado a ir assistir uma peça de teatro porque eu sinto que as vezes o cinema está mais interessante, uma série na TV fechada estão mais interessante, então eu acredito que tem um... não sei se eu chamaria de envelhecimento, mas tem algum salto que tem de ser dado que não está acontecendo objetivamente.

Uma segunda  coisa que eu percebo especificamente em Salvador é uma classe teatral absolutamente desestruturada enquanto coletividade. E qual é a repercussão imediata disso? É a possibilidade de pressão sobre os órgãos públicos, sobre a empresa privada. A coletividade não se organizando você sempre fica com atitudes individuais e isso obviamente os resultados são muito pífios, acabam  sendo resultados individuais

LA. “Espetáculo de Guerreiro que não faz sucesso de público sai de cartaz!” Esta máxima é uma verdade ou especulação?

FG. Olha tem uma questão básica: a palavra sucesso na verdade é uma coisa muito relativa, porque você pode ter um teatro de 400 lugares e você ter 200 ingressos vendidos. Aí seu espetáculo é considerado um fracasso. Esse mesmo espetáculo em um teatro de 100 lugares vai voltar gente da porta. Então essa característica é muito dúbia.

Agora: eu tenho um crivo critico muito violento. Se eu percebo que aquilo que eu produzi não interessa porque está mal realizado, eu acho que aí eu tiro de cartaz. Mas se eu percebo que eu fiz uma coisa muito interessante e isso não esta tendo o sucesso estrondoso, eu vou insistir.

Mas ao mesmo tempo, eu percebo que em uma carreira em que eu construí dois, três espetáculos em um ano, obviamente eu considero que eu fiz coisas muito boas, coisas medianas e muito ruins que eu não gosto do resultado. Então todas as vezes que eu tirei coisas de cartaz foi porque, primeiro, eu não gostava do resultado, achava que eu não devia insistir com aquilo que não era bom. E o segundo motivo é financiamento, porque a gente se preocupa muito com a estreia, captar recursos para estreia e esquece que tem uma temporada. Muitas vezes você precisa manter com recursos. Agora: para manter com recursos , você tem que correr atrás.  Quando você percebe: isso é pouco, as pessoas estão considerando isso muito bom, as pessoas estão gostando disso, então isso tem que continuar.

Agora,por exemplo: é também planejar o seu produto. Se eu tivesse feito Pólvora e Poesia e estreado no Teatro Jorge Amado seria um fracasso. Eu fiquei praticamente 3 anos em cartaz porque eu fiz a estreia em um espaço alternativo na Igreja da Barroquinha, depois acabou que eu fiz vários festivais, viajei, fiz várias temporadas curtas em casas pequenas, então o espetáculo é um sucesso. Então é esse planejamento que entra no circuito.

LA. Você acredita em um teatro para plateias menores? Digamos, um espetáculo para 12 espectadores?

FG. Sem dúvida. Eu acho que a grande paixão que eu tenho pelo teatro é pelo leque de possibilidades que ele tem. Quando eu comecei a trabalhar com arte eu aventurei várias linguagens, várias possibilidades e o teatro me fascinou, primeiro,  porque ele é vivo (o diretor não pode pegar como num filme, cortar pedaços).  Eu acho que ele tem uma interação... que é por isto eu gosto tanto de fazer rádio: porque eu sou muito fã do “ao vivo” . Se eu fosse fazer TV eu faria um programa ao vivo. E o teatro tem essa coisa “ao vivo”. Eu tenho o controle até uma certa medida. Daí por diante, qualquer coisa pode acontecer.  Especialmente na comédia.

E isto é uma das possibilidades, e é genial. Eu penso até na possibilidade de fazer pra uma pessoa. Às vezes você pode pensar em montar uma peça pra uma pessoa. Quero fazer essa experiência que é o que o Balé do TCa fez há pouco tempo. Você entrava  e via o bailarino dentro de uma caixa...

Eu acho que isto também é uma possibilidade. Então, eu acredito que sim. Agora, é claro: um diretor pautar sua carreira inteira em fazer espetáculos pra doze pessoas... então ele está com alguma questão. Isto como experiência eu acho que é válida. Pra vinte, espetáculos itinerantes... eu já vi coisas onde eu entrei com uma platéia de dez pessoas, percorri um espaço enorme com várias experiências, essas dez pessoas acabaram gerando uma aproximação entre as dez... muito bom. Eu gosto.

LA. Mario Vargas Llosa, destacado intelectual peruano, laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, falou no seu livro A civilização do espetáculo: “(...) A noção de cultura ampliou-se tanto que, embora ninguém se atreva a reconhecer, explicitamente, desvaneceu-se. Transformou-se num fantasma inapreensível, de massas, metafórico. Porque ninguém será culto se todos acreditarem que o são ou se o conteúdo do que chamamos de cultura tiver sido degradado de tal modo que todos possam justificadamente acreditar que são cultos”. Qual a sua opinião sobre esta análise?

FG: Olha, pra mim tem uma questão hoje que vivemos um novo tempo ainda desconhecido e estranho para muitos. Nos últimos 10 anos, 20 anos nós sofremos uma transformação violenta com a democratização gerada pelos meios tecnológicos. Isso pra mim sofreu um grande transformação. E uma espécie de democratização a bens culturais, sejam lá quais forem e a ideia de baixa cultura e alta cultura supostamente desvaneceu-se, então hoje muitas vezes você não precisa passar por um longo processo de aprendizagem para gerar um bem cultural valioso e isso é uma questão delicadíssima porque você tem hoje, por exemplo, na Bahia existem músicos virtuosos que não passaram necessariamente por um longo processo de aprendizagem . O que eles apreenderam, o trabalho deles foi fruto de uma outra espécie de absorção da cultura que foi no dia a dia, na vida.

O que eu acho é que temos dois aspectos para serem observados: a cultura supostamente letrada. Taí! E a gente tem hoje um ambiente educacional cada vez mais enfraquecido, empobrecido ideologicamente, culturalmente, dentro das escolas, que para mim são a base. E a consequência direta é que você tem uma população que acaba tanto sem gosto mais elaborado para consumir os bens culturais, como também você gera produção de algumas coisas bastantes medianas, fracas, etc. Por outro lado você tem uma democratização imensa e uma cultura que se prolifera de uma forma incontrolável, então eu acho que existe uma rejeição de uma elite cultural, ao perceber que ela não tem mais poder sobre isso.Escapou, escapou, você não tem mais aquela historia de dizer isso é bom e isso é ruim, eu mando no gosto das pessoas, eu tenho a noção do que é interessante e do que não é.

Eu tenho hoje o maior cuidado, a maior atenção com qualquer coisa que aparece na minha frente, porque muitas vezes uma visão preconceituosa pode bloquear a possibilidade de você perceber grandiosidade em algo absolutamente primário, pueril. Então o que acho é que precisamos nos adaptar a uma nova realidade que, se por um lado, vivemos um empobrecimento da área educacional, por outro lado democratizou de tal maneira que mais pessoas tem acesso, todos viraram artistas, todos colocam coisas na rede que você gerou uma “baratização”.

Mas isso tem um lado que eu adoro: ninguém é mais dono de nada, ninguém mais é dono da verdade, ninguém mais pode dizer o que é bom e o que é ruim. Agora tem-se que ter um parâmetro, tem que ter gente escrevendo isso é bom por isso, aquilo não é bom por aquilo, tal produto poderia melhorar se tivesse isso ou aqui. Tem que se encontrar o equilíbrio. Agora desmoronou o controle. Barbara Heliodora vai determinar o que é bom no teatro carioca?. Não tem mais. Max e Luiz vão destruir o espetáculo, se eu não gostar?. Acabou.  Acabou: tal critico musical vai derrubar o trabalho de fulano se ele não gostar do trabalho, acabou, entendeu? Então hoje você tem um multiplicidade muito grande de expressões. Quando eu entrei na gestão, uma bailarina me falou uma coisa que eu achei muito interessante: “Na verdade, nós não temos um problema de empobrecimento cultural em Salvador, nós temos falta de apoio, porque estão acontecendo coisas o tempo todo na cidade inteira, só nós estamos míopes, só vemos o que acontece ao nosso redor e no nosso percurso do dia a dia”. E meu grande aprendizado aqui na Fundação nesses dois anos é que estou impressionado com a quantidade de coisas interessantes que estou vendo e que vão totalmente de encontro a muita coisa que eu aprendi que seria interessante, que seria bom e que embola muito na cabeça.

LA. O que motivou Fernando Guerreiro a dar esse salto de um estado criativo a um estado representativo de uma instituição pública tão importante em Salvador, a Fundação Gregório de Matos?

FG. Olha... eu estava vivendo um momento específico, cansado do processo ensaio/estréia, me sentindo muito ligado a uma fogueira de vaidades, num mundo particular ligado a essas questões anteriores,  pouco  motivado com as propostas que estavam aparecendo na minha carreira teatral. Eu estava vivendo uma grande “ressaca” teatral. Estava insatisfeito com o teatro que eu estava fazendo, insatisfeito com o teatro da cidade, estava meio desinteressado. Casualmente, apareceu a proposta. No primeiro momento, eu a rejeitei. Mas eu penso que uma das coisas mais maravilhosas da vida é correr riscos. Sair do estado de torpor. Eu tenho um processo muito particular com relação a riscos, que já foi até assunto de divã de analista: inicialmente eu entro em pânico com a mudança, mas eu sigo em frente.  Por exemplo: se eu estiver com medo de avião, eu vou entrar nele carregado, gritando, mas não vou deixar de fazer a viagem.  É como se eu vivesse um eterno conflito entre meus dois signos (gosto muito de astrologia): eu sou virginiano com ascendente em leão. Num primeiro momento que vem a mudança,o virginiano e me diz: não, isto não vai dar certo, você não vai conseguir... em seguida vem o leonino jogando fogo em tudo... Então eu acho que teve, inicialmente, a questão deste desafio.

Um segundo ponto. Durante décadas Salvador não teve,  nenhum investimento em áreas culturais

A gente teve nomes muito significativos para a Fundação Gregório de Matos como Chico Sena,  Paulo Lima, mas nunca tiveram o apoio necessário dos gestores, ou seja, do prefeito, para desenvolver um bom trabalho. Eu, me senti apoiado tanto pelo prefeito ACM Neto e pelo Secretario Guilherme Belintanni, que foi quem me convidou oficialmente para o cargo. Então eu falei: a Fundação estava “acabada”. Ela praticamente não existia no cenário. Então Luiz Mafus me disse uma fraque que pra mim foi fundamental: - Fernando, num deserto, uma gota d´agua é uma revolução. Então eu achei que dava pra fazer alguma coisa...

Eu vim pra cá numa perspectiva muito minimalista. Se eu conseguir fazer 1.1, já vai sair do zero. Isto me atraiu. Pensei: eu vou, pelo menos, fazer o carro andar. Vou tirá-lo da inércia. E é o que eu tenho dito sempre: a minha função aqui é colocar a Fundação de volta à normalidade. Não vim pra cá querendo fazer projetos geniais, marcar como um grande gestor, nada disso. Eu vim pra cá para tirar um organismo da inércia e fazer a cidade entender, junto com os governantes, os artistas, que a prefeitura tem, sim, a obrigação de ter uma política cultural consistente.  Então, se eu sair daqui há um ano e meio com esta meta cumprida, já estou satisfeito.  Porque eu deixei uma máquina em movimento e eu espero que isto gere uma continuidade.

LA. Qual a sua visão sobre a urgência de uma Secretaria de Cultura para Salvador, uma capital tão rica culturalmente e com tanta diversidade?

Olha, eu acho que esta questão já está sendo muito discutida. Logo que eu assumi a fundação eu falei: - Minha gente, calma! Hoje eu acho que a gente passa por um processo. Primeiro eu preciso reerguer a Fundação, colocá-la de novo no circuito, fazer a população voltar (???)  e, num segundo momento , aí sim, eu acho que a Fundação deve permanecer e ser criada uma Secretaria de Cultura.

Eu acho que a gente agora está nesse processo de levantar a Fundação, de recolocar a Fundação numa posição de destaque, de sustentabilidade, de credibilidade e, a partir daí, eu acho que uma próxima etapa é...

Porque não há como criar uma Secretaria sem verba, sem recurso, sem pessoal (que é o grande problema que a gente tem hoje é corpo técnico, mesmo, não só daqui mas da Prefeitura como um todo), então, pra mim, são passos. Eu acredito que numa próxima gestão a gente já vai ter uma Secretaria de Cultura no Município, mas ao mesmo tempo já vai ter uma Fundação fortalecida. São etapas.

LA. A responsabilidade de uma gestão preparada em arte e cultura foi delegada nas mãos de comissões que aprovam projetos periódicos através de editais ao invés de gerar políticas culturais de manutenção a longo prazo.  Qual a sua opinião sobre este assunto?

FG. Eu peguei uma coisa tão grave (aqui falando especificamente da questão municipal), tão esfacelada que, num primeiro momento eu tinha que democratizar um pouco este recurso pra resolver uma questão geral.  Pra você ter uma idéia, eu tinha um festival de teatro que acontece anualmente  em Cajazeiras e descobri que havia espetáculos que aconteciam há quatro anos sem um centavo. O Festival de Teatro Gente, coordenado por Nathan Marrero e Everton Machado.  Então eu pensei: eu tenho que, primeiro, tentar dar um suporte . É importante entender que, quando você faz um edital, este edital tem uma linha. Porque às vezes dá a impressão de que um projeto é aprovado desordenadamente. E não é verdade. Eu acho que temos uma política cultural bem definida, claríssima – que é priorizar grupos (70% dos projetos aprovados são para grupos em trabalho continuado), priorizar a ocupação de espaços da cidade (que é uma outra grande bandeira desta gestão)  estimulando a ocupação de praças e outros espaços da cidade como um todo, já que não temos tantos equipamentos e é uma proposta geral desta prefeitura (e não só desta secretaria) para que a população volte para as ruas e, também, uma democratização deste recurso.  Isto tudo vem de uma política cultural.

Os editais hoje são muito criticados. Já são um mecanismo que estão em estudos para futuras transformações. Mas eu reconheço que falta na gestão um apoio a trabalhos de grupo que tenham continuidade. Isto, para mim, seria u ma próxima etapa. Porque para isto será necessário um recurso muito mais objetivo e eu já tenho como perceber hoje, através de dois, três editais, o que é que está permanecendo, o que é que tem consistência. A partir daí, é possível pensar num suporte a trabalhos que tenham continuidade e vai durar dois, três anos. Isto é muito importante e eu reconheço que a revolução que aconteceu em São Paulo, deu-se a partir do apoio que foi dado a trabalhos de grupo, sabendo-se que isto implica numa organização muito maior do que para um simples espetáculo, pois não será necessário um controle eventual e sim, constante, do que está acontecendo e avaliar o resultado.

Se formos observar hoje, a Lei Rouanet é uma grande distorção, tem “n” questões. O que eu percebo é que as políticas no Brasil privilegiam espetáculos eventos. Acontece que não gera continuidade. Infelizmente, ainda é muito assim. Eu estou tentando, dentro do possível,  privilegiar projetos que eu perceba que geram reações em cadeia e desdobramentos.

LA. O Balé e a OSBA tem produtos artísticos desafiadores e cada vez mais diferenciados como resultado de uma já longa trajetória de anos de manutenção e condições sistemáticas de trabalho. Você acha que a cena das artes local poderia se enriquecer se existisse uma Companhia Teatral trabalhando permanentemente nas condições que o Balé e a Sinfônica do TCA trabalham?  Estas condições não deveriam ser estabelecidas para a maior parte dos criadores baianos-brasileiros?

FG. Olha, eu gosto muito dessa idéia. Agora: acho que é preciso se fazer um estudo profundo da forma de funcionamento desses grupos ou companhias. O balet hoje tem um problema complicadíssimo que é a dificuldade de renovação do corpo de bailarinos e a mudança de funções. Porque, às vezes você tem um grupo de teatro e nele tem um ator que está ali há dez anos e ele quer trabalhar com direção, ele quer trabalhar com assistência de direção, ele quer temporariamente experimentar cenografia e você tem que ter uma renovação.

Eu acho que o processo de criação de uma companhia é absolutamente positivo, democrático mas, o formato em que isto seria mantido tem que ser muito estudado pra você não engessar e gerar uma companhia travada. E óbvio, para mim, você ia precisar ter um diretor dessa companhia. Eu lhe confesso que eu pararia tudo que estivesse fazendo na vida para dirigir uma companhia dessa. Você não tenha a menor dúvida. Inclusive não dirigiria os espetáculos. Faria um de três em três ano ou sei lá o quê. Mas as opções que eu faria de trazer encenadores...

Outra coisa que eu acho que está fazendo muita falta em Salvador , que eu acho que casa com isto também, é a possibilidade de trazer profissionais de fora. Por incrível que pareça, se começou um processo qualquer de que as pessoas que estão no mercado não querem fazer cursos. Só iniciantes fazem cursos.  As pessoas que têm mais tempo de trabalho... Eu estou vivendo isto no Boca de Brasa, eu estou vivendo isto em várias situações: -  Não tenho mais nada a aprender. Eu quero trabalhar. Claro, são duas coisas diferentes. É claro que as pessoas precisam trabalhar. Mas eu fiz algumas oficinas na minha trajetória que mudaram minha vida.

Eu tenho uma idéia... por exemplo... se algum dia eu fosse gerir o Teatro Castro Alves , por exemplo, eu transformaria aquilo ali num grande teatro escola. Ali você tem condições de ter oficinas de iluminação, oficinas de cenografia, permanentes, assim como aconteceu com a Neojibá, que acabou saindo,... Eu acho que o Teatro Castro Alves é uma grande escola montada, prática. Como o Vila Velha um pouco está fazendo. O Vila Velha se transformou numa grande escola de Teatro. E o resultado, ao meu ver, é brilhante. Você tem hoje atores saindo da Universidade Livre, trabalhando lá, sensacionais!  Eu acho que a grande vocação do Taetro Castro Alves deveria ser se transformar numa grande...  aí teria uma companhia de teatro e teria uma grande abertura para isto. É engraçado que quando você fala na possibilidade de uma companhia de teatro no TCA as pessoas se assombram... não sei o que é...  – Fazer uma companhia de teatro. - Não!!! Não sei porque isto, sabe? Não sei porque pode ter uma de dança, uma de música e não pode ter uma de teatro. Eu já toquei neste assunto em outras vezes e as pessoas parecem que vão... avançar em meu pescoço. Eu digo: - por que, gente? Por que esse trauma?  

Mas eu acho que é uma possibilidade real e um pouco o núcleo do TCA experimenta isso , com intervalos. Seria um núcleo constante.  Um coordenador, o grupo de atores e a possibilidade de vocês estar renovando anualmente esta equipe. Atores saem, atores entram, entendeu?  É um grande palco de experimentações. E você teria dentro do /TCA a possibilidade de uma linguagem assim.

O que é que eu faria automaticamente  . Esses atores teriam curso de cenografia, curso de produção teatral,  teriam curso de figurino, isto seria genial, este ator múltiplo que entende um pouco de tudo. Porque os grandes atores com quem eu trabalho são justamente aqueles que extrapolam um pouco a sua função de ator.  E também apitam pra todos os lados. Isto eu acho muito bom. Então, esta escola teria essa abrangência.

Mas eu acho que poderia ter, sim, dentro de um formato mais contemporâneo.

LA. Algo específico que Fernando Guerreiro esteja interessado em falar para nossos leitores?

FG. Obviamente eu não posso deixar de elogiar a iniciativa do lançamento da revista . Eu acho que a gente está exercitando pouco os espaços de leitura e de convivência da classe artística. Eu acho que uma revista não deixa de ser um espaço de convivência, de memória, de discussões. E queria fazer aqui um grande manifesto pela volta da crítica. Eu, como todo bom virginiano,  sou um crítico por natureza e sinto muita falta de crítica. Da crítica embasada, é claro. E não da crítica rancorosa, superficial. Eu acho que a gente precisa ter, novamente, uma geração de críticos na cidade. Trabalhando com freqüência. Eu acho que isto, para mim, foi um grande elemento de avanço na minha trajetória.  Claro que eu recebi críticas patéticas, mal elaboradas, como recebi críticas brilhantes.  Então vou lembrar desde Vieira Neto, que era um cara que escrevia aqui, acho que era Sergipano,  pro Jornal A Tarde, depois passando pelo grande amigo Clodoaldo Lobo, que fez uma grande trajetória como crítico, conhecia a fundo os artistas da Bahia, Marcos José que durante um período fez críticas muito consistentes, Eduarda Uzeda  que hoje carrega praticamente sozinha este fardo,    Jackes Beauvoir  que durante muito tempo escreveu sobre teatro... é muito importante colocar estes nomes mesmo. E hoje a gente vive praticamente sem este elemento.  Então aí a música... você não tem mais críticos... e começou a se exercitar uma coisa perigosíssima que é a confusão entre crítica e “não gostar de”.  Então: “Fernando não gosta de nada”. Não é não gosta de nada. É que eu exercito dentro de um programa de rádio (eu não sou nem crítico – eu sou comentarista) ... e a coisa é tão grave que eu parei de falar coisas no facebook . Eu fiz alguns comentários muito superficiais no facebook  sobre espetáculos e ganhei rapidamente um rol de inimigos. Até hoje por conta de um espetáculo de Harildo que eu não gosto muito do resultado, eu fiz um comentário rápido,  me disseram que eu queria matar Harildo.  Que Harildo era um senhor e  que eu queria matar ele. Porque eu fiz uma crítica, “coitado de Harildo” ... como  eu vou matar Harildo?  Você veja: um drama, uma série de discussões sobre isto...  Porque eu fiz um comentário que achava que o espetáculo estava sem ritmo,  não gostava de algumas interpretações, e isto virou um melodrama na Cidade de Salvador. Da mesma forma que, recentemente, uma cantora me chamou para ouvir um CD. Me pediu pra fazer uma avaliação para um grupo de amigos.  Eu achei que esta cantora não poderia ser compositora. As músicas que ela compõe são horrorosas. Muito ruins. Então quando acabou eu ressaltei que ela era uma grande intérprete mas  que ela não poderia dar um salto pra área de composição porque não era a dela.Foi um mal estar...  todos os amigos dizendo: - Que maravilha! Isto tudo é lindo... Você deve estar amargurado...  Por que você está amargo? – O que é isto? Eu não estou amargo, minha gente. A última coisa do mundo que eu sou é amargo. Alguém me chamar de amargo... é difícil... Mas eu não gostei. Você veja que quando Marisa Monte compõe, ela compõe com Brown e Arnaldo Antunes. Ela é inteligente! Ela bota um cara que é músico por natureza e um grande letrista... um poeta do lado dela... Então não tem risco! Aí vai qualquer maluco, e se mete a compor, quer gravar...  Aí você tem que ouvir as bombas todas lá e achar que está lindo? Carnaval, por exemplo, eu fiz alguns comentários na internet, muito superficiais sobre o que é que eu estava achando das coisas ... Eu acho que falta esta análise. Amanhã ou depois, onde é que nós vamos ter um histórico da nossa realidade de hoje? Pouco se falou de Axé, pouco material você tem sobre Axémusic, comentários objetivos, tal artista era muito bom, tal artista não era muito bom, tal movimento foi muito interessante dentro do Axé... nada! Nada. Todo mundo diz: que maravilha, que maravilha, que maravilha, tudo é lindo... Eu estava outro dia comentando que quando acaba Carnaval parece que tudo foi uma maravilha nos jornais. Tal pessoa arrasou, tal pessoa arrastou multidões...  “Arrastou multidões”: eu não agüento mais ouvir isso.  É mentira. Tem muito artista que não arrastou porra nenhuma de multidões. Então: por que é que não arrastou? O que foi que aconteceu? Não tem análise crítica. Você tem uma série de jornalistas hoje que não tem senso crítico, não tem. Então isto é o que eu deixo de elogio para a revista. Precisamos voltar ao elogio da crítica